segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Sem sentido

   
     Certa feita em um reino distante, muito distante mesmo, onde as pessoas falam enrolado, os "erres" são pronunciados como o Galvão grita "Ronaldinho" misturado com sons guturais dignos de bandas de Black Metal. Houve uma guerra devastadora, um certo bigodinho de um partido ultra nacionalista tocou o terror por lá. O bigodinho se meteu com um bigodão e levou uma surra, esse reino então passou a se equilibrar no fio da navalha. Na verdade todos os outros reinos se equilibravam como podiam pra evitar outra destruição em larga escala.
     Depois dessa treta toda, as pessoas trabalharam duro durante a reconstrução desse reino, e a bicicleta, era absoluta como transporte lá. A bonança chegou rápido, o reino era rico, explorador de colônias mundo a fora e um grande banco do velho continente. Com a bonança, veio o automóvel. Com o automóvel individual, foram-se as bicicletas, parte da história das cidades que deram lugar a novas ruas. Foram-se árvores, calçadas, bondes, vidas... Muitas vidas! Foram tantas que em determinado momento as pessoas perceberam que o meio de transporte estava cobrando um preço alto demais. O preço da gasolina também ficou alto, a bonança financeira também se foi por um momento. O reino do bigodão se foi. As bicicletas reapareceram e ainda permanecem lá, lindas, amontoadas por toda parte e até no fundo dos canais. A cidade foi repensada, o reino não precisava mais de tanto asfalto. Praças, mais calçadas, mais ciclovias. Hoje o reino é reverenciado e copiado como modelo de transporte urbano.
    Em um outro lugar diferente, uma republica. Essa aqui pertinho e não tão rica, nem tão destruída e nem tanto inteirassa assim, houve um lampejo ciclístico. Lampejos são desajeitados mesmo, não são regulares e podem não significar muita coisa ou talvez, um princípio de uma grande ideia. Uma certa estrela, hoje em frangalhos - por causas diversas - em meio a aves de bico longo tentou implantar uma cópia do reino descrito anteriormente. Apostavam que a infraestrutura deveria preceder as pessoas em bicicletas. Mudaram limites de velocidade e ritmo em que a vida se esvai em acidentes de trânsito diminuiu.  Recuperaram uma pequena parte do chão da cidade. Chão tão ignorado por tanto tempo pelas próprias pessoas que vivem sobre ele. Nesse reino aqui perto, parece que as pessoas não ligam para as outras pessoas. As aves de bico grande se alvoroçaram, o ninho estava em perigo. "Que se faça velocidade novamente! Não fiscalizem mais nada! Essas ciclovias não ligam nada a lugar nenhum, acabem com elas! Fogueira, matem todos! Estão pensando que aqui é o quê? O reino anteriormente descrito!? Vá pro reino da ilha cercada!" gritaram. E gritaram tanto, tão alto, que os súditos ouviram, aceitaram e apertaram o botão verde da aprovação. As aves de bico longo vão voltar. Parece que as coisas por aqui são como o Usain Bolt fazendo o moonwalk do Michael Jackson.

*Toda e qualquer semelhança com a realidade foi de propósito.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Torneio Capital Racing de Ciclismo: Etapa Park Way


Pois é, já se passaram quase três semanas e eu não consegui escrever uma linha sobre minha participação nesta etapa do Park Way. Não foi pela organização, esta estava impecável. Mesmo em um lugar difícil, onde o tráfego de veículos tinha que permanecer aberto durante a prova. Não foi pelo percurso, que eu não conhecia apesar da proximidade - achei muito bom, inclusive. Subidas, descidas e curvas pra todos os lados. Foi porque falhei miseravelmente. 
Só um Mojito tá de boa
Não teve graça nenhuma, a minha prova. Na subida mais longa consegui me manter no pelotão, desci lá na rabeira até a subidinha da capivara. "Subidinha" por que ela é curta, mas chega a 10% de inclinação. No meio dela, com o coração na boca, lembrei dos dias de praia, "preguiça" (quando se viaja com filhas não tem taaanto descanso assim) e mojitos cubanos. Ah, Cuba... É, sem treinar direito não tem suco de beterraba que dê jeito. Nem o Luigi teria as manhas pra resolver. Pois bem, minha corrida não terminou na subida. Passei longos minutos tentando buscar o pelotão novamente, revezando com outros 2 ciclistas da Evolua. Muita força, mais coração na boca com o pelotão logo ali... Situação de pesadelo onde você corre e não chega. Não sei exatamente quanto durou, mas uma hora achei que era suficiente e desisti.

Que sensação horrível perder o pelotão antes da metade da prova. "Fueda", próxima vez vou tomar o dobro de mojitos que é pra nem pensar em ir na mesma situação. Dia 28 de agosto acontecerá a próxima etapa, no Guará. Sir Dave Brailsford não está muito feliz com meu desempenho, muito menos eu.

Um ano de Ciclismo. Sério!

O "feice" me avisou hoje que há um ano eu comecei a escrever sobre bicicletas, ciclismo e ciclistas. "Nossa, passou rápido, né?". Rápido nada, foram 365 dias, 106 textos, 26620 visualizações e 643 seguidores lá no "feice".

Obrigado a todos pelos cliques, comentários e curtidas!

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Tour pelo Tour: Grana

Yo, look at my ride!
Voltando ao Tour - ainda não superei o final da grande volta - no último texto fiz uma comparação de performance entre o candango aqui com o campeão do Tour 2016, Chris Froome. Outra matéria, agora da Cycling weekly, me chamou a atenção (original aqui e aqui). Na verdade são duas que eu juntei em um post aqui. Qual o orçamento estimado dos times e quanto cada time levou em prêmio. Comparado com meu time, o inigualável Time de Ciclismo Sério. Acabei de inventar isso.

O time que tem o maior orçamento é bem fácil de acertar, até pra quem pedala no mato. A Sky conta com uma verba monstra quem vem majoritariamente da Sky UK Limited que é o maior provedor de TV e internet do Reino Unido. Outra parte, bem menor, cerca de 15%, vem da 21st Century Fox estado-unidense. Pesquisando um pouquinho achei que em 2015 a verba da Sky foi dividida desta forma: foram 15,6 milhões de Elizabeths de Windsor (67 milhões de Dilmas) dos grupos acima citados. 2,96 milhões (12,6 milhões de Dilmas) da Pinarello, Shimano e outros patrocinadores de equipamentos. 1,98 milhões (8,6 milhões de Dilmas) da Jaguar e 3,8 milhões (16,3 milhões de Dilmas) dos organizadores para cobrir as despesas quando um time participa de uma competição). Nada mal.

Já no Tour de 2016 estima-se que o ranking de orçamento dos times ficou assim (Valores em Merkels, mais conhecido como Euros):

Team Sky – €35m
Katusha – €32m
BMC – €28m
Tinkoff – €25m
Astana – €20m
Etixx-Quick Step – €18m
Movistar – €15m
Lotto-Soudal – €14m
LottoNL-Jumbo – €14m
Dimension Data – €13.5m
Orica-BikeExchange – €13m
Giant-Alpecin – €12.5m
Trek-Segafredo – €12m
Ag2r La Mondiale – €12m
Cofidis – €11m
IAM Cycling – €10.5m
FDJ – €10m
Cannondale – €10m
Lampre-Merida – €7m
Direct Energie – €6m
Bora-Argon 18 – €4.5m
Fortuneo-Vital Concept – €3.5m

Os russos tem bala na agulha. Imagem: Al Hamilton
O segundo lugar eu não acertaria nunca, os russos da Katusha têm bala na agulha. A grana vem das gigantes russas Gazpron e Areti. O falastrão Oleg Tinkoff vem só em quarto, atrás dos suíços da BMC. Lá no final está o novo time de Peter Sagan, a Bora-Argon (que vai mudar de nome em 2017).

Mas será que valeu a pena? Provavelmente sim, o Tour é um dos mais assistidos eventos esportivos do mundo. Não faço a menor ideia de como os patrocinadores medem o retorno financeiro da exposição das marcas. Mas o Tour está na centésima segunda edição. Deve dar retorno. Uma coisa que podemos medir são os prêmios em dinheiro distribuídos pela organização. O Ranking ficou assim:

Team Sky – €599,240
Ag2r La Mondiale – €247, 140
Movistar – €229,350
Tinkoff – €189,470
Orica-BikeExchange – €158,810
BMC – €121,170
Lotto-Soudal – €90,860
Dimension Data – €88,590
Etixx-Quick Step – €87,610
Katusha – €68,500
IAM Cycling – €67,230
Lampre-Merida – €61,900
Giant-Alpecin – €51,570
Astana – €39,430
Bora-Argon 18 – €32,730
Direct Energie – €29,290
FDJ – €27,870
Trek-Segafredo – €26,360
Cofidis – €22,760
LottoNL-Jumbo – €21,750
Fortuneo-Vital Concept – €20,120
Cannondale-Drapac – €14,100

AG2R trabalhando. Imagem: Getty Images
É de praxe que os atletas dividam os prêmios entre todos da equipe, até o pessoal de suporte. Não se sabe a proporção, mas todo mundo ganha, afinal o ciclismo de estrada não é um esporte completamente individual. A Sky aparece no topo da lista de novo. Só Cris Froome recebeu 500 mil Euros pela vitória geral. Romain Bardet recebeu 200 mil Euros pela segunda posição e Nairo Quintana 100 mil. Fiquei curioso e fiz as contas para medir o retorno de cada euro investido em prêmios e o resultado é interessante: Sky recebeu 0,017 centavos para cada euro inteiro investido. A Katusha, segundo maior orçamento, recebeu 0,002 centavos de volta. BMC, terceiro maior orçamento, teve retorno de 0,004 centavos. A Ag2r La Mondiale, 0,02 (melhor retorno). A Bora-Aragon recebeu 0,07. Cannondale-Drapac com 0.001 (pior retorno).

E o time de ciclismo sério, onde fica? Nosso orçamento é simples: Não recebemos nada de patrocinadores e não ganhamos nada em prêmios. Simples desse tanto!

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Você contra um profisional do Tour

Achei uma matéria interessante no site da Bicycling.com (original em inglês aqui) que compara alguns pontos de performance de ciclistas amadores com profissionais do Tour de France. Eu, sério que sou, vou me colocar contra Cris Froome, afinal a comparação tem que ser justa e séria. Praticamente séria. Vamos lá!

Canela fina é que faz subida boa. Foto: ridemedia.com.au

Pernas: 

Ciclista, sério: cabeludas x Cris Froome: depiladas

Em um contra relógio de 40 km, Froome deve ganhar entre 60 e 75 segundos sobre mim, com pernas cabeludas. Dito isto, os profissionais não depilam as pernas pela aerodinâmica; Eles o fazem pelas massagens e, em caso de queda, pernas raspadas cicatrizam mais rápido.

Soigneur, rala. Foto: Gettyimages

Caramanholas, as garrafinhas: 

Ciclista, sério: 3, mas só 2 tampas x Cris Froome: de 4 a 13

Aqui em Brasília, nesta época do ano, onde as condições de umidade e temperatura chegam muito próximas as condições do Saara, sair com uma garrafa só é garantia de desidratação. Dependendo das condições, um soigneur (um faz tudo da equipe de apoio) prepara de 40 a 120 caramanholas para cada estágio.

Rápido

Velocidade média em contra relógio

Ciclista, sério: de Tarmac bem dobrado x Cris Froome: De Bolide bem ajustado

Não que eu vá alcançar o Cristopher se montar numa Pina Bolide, mas deve ajudar bastante. Treinando Contra relógio em intervalos de 12 minutos com absolutamente nada "aero" em um percurso fechado ganhando cerca de 25 metros, consegui fazer entre 30 e 33 km/h de média. No décimo terceiro estágio do Tour desse ano, um contra relógio com cerca de 600 metros de ganho de elevação, Cris mandou 44 km/h de média, só não conseguindo superar Tom Dumolin.

Quase pega o Sagan, só que não.


Força máxima em Sprint

Ciclista, sério: Não tem perna pra fazer sprint no final do pelotão do lago sul X Cris Froome disputou com Peter Sagan uma etapa.

Tudo bem que o Sagan fez o Sprint quase com um sorriso no rosto, mas Froome estava lá pra sair na foto. Pra comparação, nos últimos 5 segundos de corrida até a linha de chegada, Marcel Kittel pode alcançar cerca de 1500 watts. Estima-se que um ciclista médio chegue a 600 - 800 W.

Sky Train. Foto: Watson

Velocidade média em terreno plano

Ciclista, sério: Com pelotão 35 a 38 km/h. X Cris Froome: 40 a 44 km/h

Chegar até o final do percurso no pelotão "B" do lago sul é por si só uma façanha. Quando o pessoal quer chegar mais rápido em casa pra não perder o Tour a média chega a 40 km/h, nessas ocasiões a coisa fica bem tensa. Já no pelotão profissional em um dia "fácil" (com fuga) a média chega a 44 - 45 km/h. Se bem que na terceira etapa do Tour 2016 a média ficou em 33 km/h.

Essa imagem é histórica

Quanto demora pra subir o Monte Ventoux

Ciclista, sério: Já subiu uma vez na vida outra montanha X Cris Froome: Sobe sério.

Em 2015 houve um suposto vazamento de dados de Froome na escalada do Monte Ventoso no Tour. Média de 389 watts durante os 20 km de subida. A minha escalada mais épica, cerca de 18 km a 6% (média) o estimado de força foi cerca de 210 watts. Ou seja, Cris sobe duas vezes enquanto eu completo uma subida.

Bicicletas disponíveis

Ciclista, sério: Uma Tarmac e uma Caloi pra levar as filhas X Cris Froome: PinarelloS 

Froome, o principal ciclista da poderosíssima Sky deve ter duas ou três bicicletas reserva, de estrada e de Contra relógio. Minha situação é muito boa, posso ter duas bicicletas! Uma muito boa e outra pra toda obra.

domingo, 17 de julho de 2016

Um Tour pelo Tour: Alguém pode bater Froome?

Alguém pode bater Froome? Até aqui, no décimo quinto estágio, acho que não. Cristopher Clive Froome não tem concorrentes este ano. Quiçá terá, em grandes voltas, enquanto estiver competindo. Eis o por quê da minha opinião:

Froomey ataca na descida.
Rinoceronte de Nairóbi
Eu achava que era só o tubarão do estreito de Mecina que podia atacar ladeira abaixo. Parece que ele aprendeu nos treinos em Tenerife.

Froomey ataca no plano.
Sagan x Froome
Maciej Bodnar e Peter Sagan atacaram à cerca de 10 km do final do décimo primeiro estágio. No plano. Quem respondeu? O cara de Nairóbi. Geraint Thomas veio para ajudar no esforço que terminou numa "disputa" entre Sagan e Froome. Disputa entre aspas por que Peter não fez um grande esforço para superar Froome.

Froomey se defende na tempestade de granizo.
Final épico!
 Froome se defendeu muito bem de Nairo Quintana, seu principal rival nas subidas do Tour deste ano, mantendo o colombiano atrás até a chegada. Isso no dia seguinte ao ataque no plano com Sagan.

Froomey ataca correndo.
Amassado
wruuuuuun!
Depois de colidir à 1.2 km do final, Froome simplesmente decidiu correr enquanto esperava a bicicleta reserva chegar.

 Froomey ataca no Contra Relógio Individual.
Froome meteu um nabo de tempo nos principais concorrentes à classificação geral no contra relógio individual.

Agora ele tem 1'47" sobre Bouke Mollema, que vem andando muito bem até agora. 2'45" sobre Adam Yates, que é a grande surpresa do Tour, ele não foi à França para disputar a classificação geral, a princípio. E 2'59" sobre Nairo Quintana, quem eu achei que poderia complicar a disputa. Ainda tem um contra relógio individual em subida e os Alpes pela frente, mas não creio que alguém possa vencer Froome na edição de 2016.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Tour pelo Tour


A ASO precisa ver isso aí... Imagem: @veloimages
Continuo não muito animado em pedalar pelas ruas, é verdade, mas o Tour é o Tour. E o final da etapa de hoje foi uma loucura. E isso não foi uma figura de linguagem, é sério.
Confusão feita. Imagem: Cyclingtips.com
A grande confusão foi a um quilometro e duzentos metros da chegada. Um encurtamento de 6 quilômetros no percurso feito pela ASO devido aos fortes ventos, que excediam 100 km/h no topo do Mont Ventoux (monte ventoso) fez com que o público se acumulasse na nova chegada. Uma estrada estreita, cercada por vegetação com pouco espaço pra assistir a passagem dos ciclistas. Significou...
E o Queniano corre! Imagem: ABC Austrália
O pessoal se espremeu pra ver a disputa pela camisa amarela que estava pegando fogo. Richie Porte atacava, Cris Froome e Bouke Mollema vinham atrás. Nairo Quintana já havia sobrado. A moto de uma equipe de TV que estava a frente dos três não conseguiu abrir caminho por entre os espectadores e freou bruscamente. Porte sem ter o que fazer, colidiu contra a moto, Froome caiu logo depois e Mollema voou por cima dos dois. Pra terminar o serviço, outra moto que vinha atrás acertou a Pinarello F8 ultralight (que dor no coração) quebrando um dos "seat stays". O que veio depois é que surpreendeu a todos: "Eu só comecei a correr", contra Froome. "Eu sabia que o carro (com a bicicleta reserva dele) estava preso 5 minutos atrás". G. Thomas complementa entre risadas: "Froome é do Quênia, estão se espera que ele corra quando não esteja com sua bici". Dave Brailsford, um dos chefões da Sky também brinca: "Sempre que subimos o Ventoux acontece uma surpresa, todos viram que foi um acidente. Talvez Froome corra a maratona de Paris agora". E a internet reagiu rápido também:
Sidi especial

Corridinha no Strava. Imagem @N_Squillari
No fim o juri do Tour decidiu neutralizar os tempos à partir do acidente, mantendo Froome com a camisa amarela e estendendo a vantagem sobre Quintana. Que dia para Cris Froomey!!!